Eis um pequeno aperitivo para quem não conhece ou pouco conhece a vida e a obra desse grande poeta baiano. Vale a pena!!
waly salomão. foto: wilson midlej
Fábrica do Poema
In memoriam
Donna Lina Bo Bardi
sonho o poema de arquitetura
ideal
cuja própria nata de cimento
encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair
faíscas das britas
e leite das pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa,
fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê
do vento
e evola-se, cinza de um corpo
esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca
houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os
ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos
sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.
sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações,
metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo
fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no
sono.
nem dormir deveras.
pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará o
recalcado?
(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra
"recalcado" é uma expressão
por demais definida, de
sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão
mágica
vou rasurá-la daqui do poema)
pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará?
Devenir, devir
Término de leitura
de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.
Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.
Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.
Morro e transformo-me.
Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém
Morre e transforma-te.
Waly Dias Salomão
(Jequié, 3 de setembro de 1943
Rio de Janeiro, 5 de maio de 2003)
O poeta, letrista, ator e
produtor cultural brasileiro nascido em Jequié, Estado da Bahia, participou do movimento
cultural Tropicália, na década de 60, que misturou temas e palavras americanas aos
utilizados pela popular Bossa Nova, mas não se considerava do grupo. Filho de
pai sírio e mãe baiana, desde cedo mostrou-se voltado para a intelectualidade.
Lançou seu primeiro livro de
poemas, Me Segura que eu Vou Dar um Troço (1971), uma obra com textos escritos
durante uma temporada passada na prisão, paginados e diagramados pelo
artista plástico e seu amigo Hélio Oiticica (1937-1980). Neste ano também dirigiu o
clássico show Fa-tal (1971), marco na carreira de Gal Costa. Co-autor de músicas
como Mel e Talismã, ambas em parceria com C
aetano e que viraram título dos
discos de Maria Bethânia (1979 /1980), respectivamente, Anjo Exterminado
e Mal Secreto, com Jards Macalé, Assaltaram a Gramática, com Lulu Santos e
sucesso com os Paralamas do Sucesso, Balada de um Vagabundo, com Roberto
Frejat, Pista de Dança, com Adriana Calcanhotto, e Vapor Barato, com Jards Macalé,
entre outros.
Entre seus livros de sucesso
figuraram Gigolô de Bibelôs, Surrupiador de Souvenirs, Algaravias, Lábia e
Tarifa de Embarque (2000), entre outros. Participou do filme Gregório de Mattos
(2002), da cineasta Ana Carolina, onde vivia o poeta luso-baiano ao lado de Marília
Gabriela e Ruth Escobar. Casado e pai de dois filhos, o poeta da Tropicália
ficou internado por doze dias na Clínica São Vicente, na Gávea, zona sul do Rio, para
fazer tratamento de um câncer no intestino e morreu aos 59 anos. A causa
mortis oficial foi a falência múltipla de órgãos, depois que a doença causou metástase
para o fígado. Após o velório no Cemitério São João Batista, o corpo do poeta e
letrista foi cremado no Cemitério do Caju, na zona norte do Rio de Janeiro. Era
secretário Nacional do Livro do Ministério da Cultura, nomeado pelo Ministro
Gilberto Gil, e responsável pela divulgação do livro
e da leitura.
Em 1997, ganhou o Prêmio Jabuti
de Literatura com o livro de poesia Algaravias. Seu último livro foi Pescados Vivos, publicado
em 2004, após sua morte.
Fonte: www.rosanycosta.com.br