sexta-feira, 22 de junho de 2012

parnaso

às meninas, Golda e Dulce



Arte: Isa de Oliveira

"Sou feminina, menina, mulher, a vida me ensina, a vida me é sina, sou fêmea, sou fama, sou filha, sou drama, da vida, oficina, sou tudo que rima, sou quem desatina, sou sina maior."
(autor desconhecido)


salve
os poetas...

esses seres
insuportavelmente
caóticos

e belos

... prefiro, porém
as poetisas.

henrique magalhães
(todos os direitos reservados)

terça-feira, 5 de junho de 2012

procissão (ou jesus no xadrez), por cordel do fogo encantado

O Cordel do Fogo Encantado foi, sem dúvida alguma, um dos grupos mais representativos da nova geração da chamada "música de raíz" do nordeste.
Oriundo da cidade de Arco Verde, portal do sertão pernambucano (terra de meu pai e quase vizinha de minha querida terra natal, Salgueiro), o grupo misturava música, teatro e recitais de cordéis e poesias de legítimos representantes da cultura sertaneja nordestina, como Zé da Luz e Chico Pedrosa. Aliás, é desse último a poesia interpretada pelo grupo no vídeo abaixo. Uma belíssima interpretação de uma obra-prima da cultura popular do nordeste brasileiro.
O Cordel do Fogo Encantado encerrou suas atividades há dois anos, ou pelo menos entrou em recesso por tempo indeterminado, para que seus integrantes se dedicassem a projetos pessoais. Quanto ao grande poeta paraibano Chico Pedrosa, fica a dica.
Apreciem sem moderação!



No tempo em que as estradas eram poucas no sertão
Tangerinos e boiadas cruzavam a região entre volante e cangaço
Quando a lei era do braço do jagunço pau mandando do coronel invasor
Dava-se no interior esse caso inusitado
Quando o palmera das antas pertencia ao capitão Justino Bento da Cruz
Nunca faltou diversão vaquejada, canturia, procissão e romaria
sexta-feira da Paixão
Na quinta-feira maior Dona Maria das Dores no salão paroquial
Reunia os moradores depois de uma pré-eleção ao lado do capitão
Escalava a seleção de atriz e atores
Todo ano era um Jesus, um Caífaz e um Pilatos
Só nao mudavam a cruz, o verdúguio e os mal-tratos
O Cristo daquele ano foi o Quincas Beija-Flor
Caífaz foi Cipriano
Pilatos foi Nicanor
Duas cordas paralelas separava a multidão
Pra que pudessem entre elas caminhar a procissão
Quincas conduzindo a cruz
Foi e num foi advertia, um cinturião pervesso que com força le batia
Era pra bater maneiro, Bastião não entendia
Devido um grande pifão que tomou naquele dia do vinho que o capelão guardava na sacristia
Cristo dizia: "ô rapaz, ve se bate devagar, já to todo encalombado assim não vou aguentar,
ta com a gota pra duer, ou tu para de bater ou a gente vai brigar jogo ja essa cruz fora, to ficando aperriado, vou morrer antes da hora de ficar crucificado"
O pior é q o malvado fingia que não ouvia e além de bater com força ainda se divertia, espiava pra jesus, fazia pouco e dizia:
"que Cristo froxo é você que chora na procissão? Jesus pelo que se sabe num era mole assim não eu to batendo com pena, tu vai ver o que é bom, na subida da ladeira da venda de fenelon o couro vai ser dobrado
até chegar no mercado da cuica mudotor"
Naquele momento ouviu-se um grito na multidao era Quincas que com raiva sacudiu a cruz no chão e partiu feito um maluco pra cima de Bastião
Se travaram num tabefe, pontapé e cabeçada
Madalena levou queda
Pilatos levou pancada
Deram um cacete em Caífaz que até hoje não faz nem sente gosto de nada
Dismancharam a procissão o cacete foi pesado
São Tomé levou um tranco que ficou desacordado
Acertaram um cocorote na careca de Timotéo que inté hoje é aluado
Inté mesmo São José que não é de confusão, na ansia de defender o seu filho de criação aproveitou a garapa pra dar um monte de tapa na cara do bom ladrão
A briga só terminou quando o doutor delegado interviu e separou cada santo pro seu lado
Desda que o mundo se fez, foi essa a primeira vez que Jesus foi pro xadrez mas não foi crucificado.


Chico Pedrosa

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Chifre: Modo de Usar, por Xico Sá

Descobri esse texto, interessantíssimo, futucando um dos blogs o qual eu costumo seguir com uma relativa regularidade, assinado pelo jornalista e cronista cearense Xico Sá (http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/).
Trata-se de uma reflexão bem-humorada e sem "frescuras" sobre uma das questões mais discutidas e também mais témidas (principalmente por nós, "homens com H"): o chifre.
Enfim: quem nunca levou (ou pelo menos não sabe que já levou)?
A todos e a todas, uma inquietante leitura!



Como assim corno de si mesmo?
É possível?
Como aprendi, entre outras tantas lições, com o meu conterrâneo Miguel Arraes: “Meu filho, tudo é possível no mundo dos possíveis”. Era uma coletiva no Palácio do Campo das Princesas. Jovem repórter, havia feito uma pergunta imbecil qualquer.

É possível ser corno de si mesmo? Sim. Está ai o Marques de Sade, um dos padrinhos sentimentais deste blog, que não nos deixa mentir.

Cuidado. É mais possível do que o amigo e a amiga imaginam.
Digamos que você vá a uma baile de máscaras. E lá esteja, sem que o saiba, seu marido ou a sua mulher. Você transa sem saber que é ele(a).

Eis a pista. Mais eu não conto para não estragar de tudo a leitura deste conto genial. Havia sido lançado pela Hedra, agora volta em uma edição para lá de econômica, apenas cinco mangos, na coleção de banca da L&PM.
Coleçãozinha excelente da editora de Porto Alegre. São livros de até 64 páginas, contos ou pequenos ensaios. Ideais para ler no metrô, em uma ponte aérea, no consultório.

Bela iniciativa no país dos livros caros e dos homens baratos.
“O corno de si mesmo” é da série de textos que o nobre Marquês escreveu quando estava preso na Bastilha, por volta de 1787, na França.

De si mesmo ou de outrem, amigo, algum dia faltamente seremos. Por isso o valor dessa literatura para refletir e coçar a testa. Eu recomendo.
Não há nada demais nisso. Seja você manso, complacente, quase um voyeur do chifre, como muitos personagens de Sade. Seja você um corno bravo, destemido, do tipo que sai a fazer besteiras. Inúteis besteiras. Chifre posto, nada mais nessa vida o subtrai.

Sim, caro Marçal Aquino, o amor e outros objetos pontiagudos. Acontece nas melhores famílias da Inglaterra ou do Crato.
Só um chifre, aliás, humaniza um macho. Só um chifre tira a nossa arrogância falocrática.

E já que falamos de filosofia de pára-choque, fica aqui um clássico: chifre é para homem, boi usa de enxerido.
Relaxa.


Xico Sá
(Jornalista, colunista da Folha de São Paulo)

sábado, 26 de maio de 2012

um pequeno aperitivo de marc chagall

A obra de Marc Chagall é um verdadeiro mosaico temático de tendências artísticas variadas. Eclético por natureza, o artista plástico bielorrusso flertou com as mais variadas escolas de arte da sua época, como o surrealismo, o expressionismo e o cubismo. Teve uma vida intensa de exílios, amores e muita arte, tendo "desencarnado" ainda jovem, aos 98 anos de idade, em plena produtividade artística.
Abaixo, alguns pequenos aperitivos da arte desse gênio, e uma breve biografia de sua vida e obra.
A todos e todas, um bom deleite!

adam and eve expelled from paradise

chloe carried off by the methymnaens

circus horse rider

i and the village

la caduta di icaro

paradise

the enamoured

the poet with the birds

the sabbath

Nascido Mojša Zacharavič Šahałaŭ' (em bielorrusso Мойша Захаравіч Шагалаў; em russo Мовшa Хацкелевич Шагалов), quando entrou para o ateliê de um retratista famoso da sua cidade natal. Lá aprendeu não só as técnicas de pintura, como a gostar e a exprimir a arte. Ingressou, posteriormente, na Academia de Arte de São Petersburgo, de onde rumou para a próspera cidade-luz, Paris.
Ali entrou em contacto com as vanguardas modernistas que enchiam de cor, alegria e vivacidade a capital francesa. Conheceu também artistas como Amedeo Modigliani e La Fresnay. Todavia, quem mais o marcou, deste próspero e pródigo período, foi o modernista Guillaume Apollinaire, de quem se tornou grande amigo.
É também neste período que Chagall pinta dois dos seus mais conhecidos quadros: Eu e a aldeia e O Soldado bebé, pintados em 1911 e em 1912, respectivamente.
Os títulos dos quadros foram dados por Blaise Cendrars. Coube a Guillaume Apollinaire selecionar as obras que seriam posteriormente expostas em Berlim, no ano em que a 1º Grande Guerra rebentou, em 1914.
Neste ano, após a explosão da guerra, Marc Chagall volta ao seu país natal, sendo, portanto, mobilizado para as trincheiras. Todavia, permaneceu em São Petersburgo, onde casou um ano mais tarde com Bella, uma moça que conheceu na sua aldeia.
Depois da grande revolução socialista na Rússia, que pôs fim ao regime autoritário czarista, foi nomeado comissário para as belas-artes, tendo inaugurado uma escola de arte, aberta a quaisquer tendências modernistas. Foi neste período que entrou em confronto com Kasimir Malevich, acabando por se demitir do cargo.
Retornou então, a Paris, onde iniciou mais um pródigo período de produção artística, tendo mesmo ilustrado uma Bíblia. Em 1927, ilustrou também as Fábulas de La Fontaine, tendo feito cem gravuras, somente publicadas em 1952. São também deste ano conhecidas, as suas primeiras paisagens.
Visitou, em 1931, a Palestina e, depois, a Síria, tendo publicado, em memória destas duas viagens o livro de carácter autobiográfico Ma vie (em português: "Minha vida").
Desde o ano de 1935, com a perseguição dos judeus e com a Alemanha prestes a entrar em mais uma guerra, Chagall começa a retratar as tensões e depressões sociais e religiosas que sentia na pele, já que também era judeu convicto.
Anos mais tarde, parte para os Estados Unidos da América, onde se refugia dos alemães. Lá, em 1944, com o fim da guerra a emergir, Bella, a sua mulher, falece, facto que lhe causa uma enorme depressão, mergulhando novamente no mundo das evocações, dos chamamentos, dos sonhos. Conclui este período com um quadro que já havia iniciado em 1931:Em torno dela.
Dois anos depois do fim da guerra, regressa definitivamente à França, onde pintou os vitrais da Universidade Hebraica de Jerusalém.
Na França e nos Estados Unidos da América pintou, para além de diversos quadros, vitrais e mosaicos. Explorou também os campos da cerâmica, tema pelo qual teve especial interesse.
Em sua homenagem, em 1973, foi inaugurado o Museu da Mensagem Bíblica de Marc Chagall, na famosa cidade do sul da França, Nice. Em 1977 o governo francês condecorou-o com a Grã-cruz da Legião de Honra.
Tendo sido um dos melhores pintores do século XX, Marc Chagall faleceu em Saint-Paul-de-Vence, no sul da França, em 1985.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

um pequeno aperitivo de waly salomão

Eis um pequeno aperitivo para quem não conhece ou pouco conhece a vida e a obra desse grande poeta baiano. Vale a pena!!

waly salomão. foto: wilson midlej

Fábrica do Poema
In memoriam Donna Lina Bo Bardi
sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite das pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.
sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará o recalcado?
(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra "recalcado" é uma expressão
por demais definida, de sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão mágica
vou rasurá-la daqui do poema)
pois a questão-chave é:
sob que máscara retornará?

Devenir, devir
Término de leitura
de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.
Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.
Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.
Morro e transformo-me.
Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém
Morre e transforma-te.

Waly Dias Salomão
(Jequié, 3 de setembro de 1943 Rio de Janeiro, 5 de maio de 2003)

 O poeta, letrista, ator e produtor cultural brasileiro nascido em Jequié, Estado da Bahia, participou do movimento cultural Tropicália, na década de 60, que misturou temas e palavras americanas aos utilizados pela popular Bossa Nova, mas não se considerava do grupo. Filho de pai sírio e mãe baiana, desde cedo mostrou-se voltado para a intelectualidade.
Lançou seu primeiro livro de poemas, Me Segura que eu Vou Dar um Troço (1971), uma obra com textos escritos durante uma temporada passada na prisão, paginados e diagramados pelo artista plástico e seu amigo Hélio Oiticica (1937-1980). Neste ano também dirigiu o clássico show Fa-tal (1971), marco na carreira de Gal Costa. Co-autor de músicas como Mel e Talismã, ambas em parceria com Caetano e que viraram título dos discos de Maria Bethânia (1979 /1980), respectivamente, Anjo Exterminado e Mal Secreto, com Jards Macalé, Assaltaram a Gramática, com Lulu Santos e sucesso com os Paralamas do Sucesso, Balada de um Vagabundo, com Roberto Frejat, Pista de Dança, com Adriana Calcanhotto, e Vapor Barato, com Jards Macalé, entre outros.
Entre seus livros de sucesso figuraram Gigolô de Bibelôs, Surrupiador de Souvenirs, Algaravias, Lábia e Tarifa de Embarque (2000), entre outros. Participou do filme Gregório de Mattos (2002), da cineasta Ana Carolina, onde vivia o poeta luso-baiano ao lado de Marília Gabriela e Ruth Escobar. Casado e pai de dois filhos, o poeta da Tropicália ficou internado por doze dias na Clínica São Vicente, na Gávea, zona sul do Rio, para fazer tratamento de um câncer no intestino e morreu aos 59 anos. A causa mortis oficial foi a falência múltipla de órgãos, depois que a doença causou metástase para o fígado. Após o velório no Cemitério São João Batista, o corpo do poeta e letrista foi cremado no Cemitério do Caju, na zona norte do Rio de Janeiro. Era secretário Nacional do Livro do Ministério da Cultura, nomeado pelo Ministro Gilberto Gil, e responsável pela divulgação do livro
e da leitura.
Em 1997, ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura com o livro de poesia Algaravias. Seu último livro foi Pescados Vivos, publicado em 2004, após sua morte.

Fonte: www.rosanycosta.com.br

quinta-feira, 10 de maio de 2012

álbuns inesquecíveis - rock (nacional)

Música sempre fez parte de minha vida. Desde muito jovem, lembro-me, por exemplo, de ouvir os LPs de Roberto Carlos junto com meu pai, fã confesso do “rei”.
Comecei me interessando, de forma ainda meio descompromissada, por músicas que estavam na moda, na época (início da década de 1990), as chamadas “mixages”, ou simplesmente músicas eletrônicas comerciais. Mas, interesse em música pra valer mesmo veio com o rock, a partir de meados da década citada. A partir de então, veio outros interesses musicais, e desde então nunca mais deixei se ouvir música. Mais do que isso, sentir música.
A série que agora inauguro tem por objetivo fazer uma antologia musical da minha vida, álbuns, de diferentes vertentes musicais, que foram cruciais para o meu despertar nessa arte soberana e que até hoje compõem a trilha sonora de minha existência.
Os álbuns não estarão em ordem de preferência ou de qualquer outro critério, estarão organizados aleatoriamente.
Abrindo a série, uma pequena seleção de álbuns de rock “brazuca” marcantes em minha vida. Lógico que não estão todos eles (seriam muitos), apenas alguns que despertam uma nostalgia especial em mim. 
 


Raimundos – Raimundos


Se não me falha a memória, este foi o primeiro álbum que me despertou realmente para o rock nacional. Isso em 1995, aproximadamente. Quando ouvi pela primeira vez esse álbum, por meio de uma fita cassete emprestada por um colega de escola na época (o saudoso Antônio Érico), fiquei em estado de êxtase. Uma barulheira “infernal”, permeada por um vocal esquizofrênico entoando letras recheadas de palavrões e gírias. Um hardcore nervoso e visceral temperado por elementos da cultura nordestina, como o baião. Destaque para as faixas Puteiro em João Pessoa, Nega Jurema, Cintura Fina e Rapante. Ah, também tem a “baladinha” Selim.
 

Legião Urbana – As Quatro Estações


Esse álbum, apesar de não ter sido meu primeiro contato com esse grupo brasiliense seminal para a explosão do pop rock nacional na década de 1980, foi, sem dúvida, o que contribuiu para que eu começasse a observar o rock brasileiro com outros olhos. Capitaneado pelo eterno Renato Russo, esse registro traz canções que constituem verdadeiros hinos para a juventude brasileira, como Pais e Filhos e Há Tempos. Há também baladas com alguma essência politizada, como a bela Se Fiquei Esperando o Meu Amor Passar. Também destaco canções menos populares como Eu Era Um Lobisomem Juvenil.


Titãs – Go Back


Esse álbum constitui o primeiro registro ao vivo do grupo paulistano em áudio, gravado em 1988. A faixa título é originalmente um belíssimo poema do tropicalista Torquato Neto, morto em 1973. O arranjo é um reggae melódico e cadenciado que se encaixou perfeitamente na letra.

“Você me chama
Eu quero ir pro cinema
Você reclama
Meu coração não contenta
Você me ama
Mas de repente
A madrugada mudou (...)”

O álbum ainda traz canções emblemáticas e sucessos em versões furiosas, como Pavimentação, Cabeça Dinossauro e Polícia.


Paralamas do Sucesso – Vamo Batê Lata


Esse álbum duplo do grupo carioca, também seminal para a explosão do rock nacional nos anos 1980, contribuiu para que eu passasse a enxergar a banda de verdade. A mistura de rock, ska, reggae e sonoridades da música latina em geral, abriram meus olhos para outras possibilidades sonoras dentro do rock n’ roll. Até então, conhecia um hit aqui, outro acolá (isso em 1995, mais ou menos), mas nunca tinha parado para escutar nada deles mesmo. O material contém um álbum de estúdio contendo quatro faixas, então inéditas, com destaque para Uma Brasileira, parceria de Hebert Vianna e Carlinhos Brown e a politizada Luíz Inácio, uma referência ao então futuro presidente da república. No álbum gravado ao vivo, fica evidenciada a plena harmonia entre três músicos explendidamente talentosos e uma banda de apoio igualmente sensacional. O registro é aberto com a emblemática e então inédita A Novidade, parceria da banda com Gilberto Gil. Destaques também para Dos Margaritas, a belíssima Lanterna dos Afogados e Meu Erro, com direito a Soul Sacrifice, do espetacular guitarrista mexicano Carlos Santanna, como faixa incidental.


Ave Sangria – Ave Sangria


Juntamente com os Mutantes, esse grupo pernambucano, pioneiro na cena psicodélica nordestina no início dos anos 1970, me chamou atenção tanto pela musicalidade emm si, uma mistura de rock psicodélico com elementos da música popular nordestina, como pela presença de palco dos caras. Tive a oportunidade de ver alguns vídeos de shows deles, que chegavam a soltar charadas para os policiais que faziam a “segurança” do show, isso em plena ditadura militar. Também se apresentavam travestidos e chegavam a se beijarem na boca em algumas ocasiões. Merecem destaques também as letras emblemáticas do poeta e vocalista Marco Pólo, como Três Margaridas, a polêmica Seu Waldir (com suposta apologia ao homossexualismo) e O Pirata, e para a bela Dois Navegantes, composta pelo baixista Almir de Oliveira. Tem também a instrumental, com título provocador, Sob o Sol de Satã. Após o fim do grupo, em 1976, cada integrante tomou um rumo. Dos que ainda têm mais contato com a mídia, Marco Pólo hoje trabalha como jornalista e poeta e o guitarrista Paulo Rafael é produtor musical e faz parte da banda de apoio de Alceu Valença.  
 

Chico Science & Nação Zumbi – Da Lama ao Caos


O Movimento MangueBeat, capitaneado por Fred Zero Quatro e Chico Science, respectivos líderes dos grupos Mundo Livre S. A. e Chico Science & Nação Zumbi, respectivamente, constituiu um dos movimentos mais emblemáticos no sentido de reafirmar o caráter universal da música nordestina no Brasil. Surgido a partir do manifesto intitulado Caranguejos com Cérebro, assinado por Fred Zero Quatro, o movimento propunha uma revalorização da cultura popular nordestina, especialmente a  pernambucana, a partir de um olhar para o contexto sócio-cultural das comunidades dos  manguezais, e também de sua dinâmica natural. O álbum citado constitui o primeiro registro do citado grupo, que chamou atenção pelo som pesado do rock, casado pelo suingue da sonoridade de dubs e da soul music, com elementos do maracatu (tambores frenéticos, agogôs, djambês, enfim). Destaque para canções que marcaram época como Da Lama ao Caos e Banditismo por uma Questão de Classe.
 

Lampirônicos – Que Luz é Essa?


Esse grupo baiano surgiu na terra do axé no início dos anos 2000, com uma proposta musical pautada na mistura suingada do pop rock com o baião e a música eletrônica. O nome surgiu da fusão do termo “Lampiões eletrônicos”, durante uma brincadeira entre os integrantes. O álbum é o primeiro registro do grupo, e também o único com o vocalista original Nikima, que deixou o grupo após a turnê do álbum para se dedicar a projetos mais alternativos. A faixa-título é uma das muitas canções esquecidas de Raul Seixas, que originalmente é um baião, e que na nova versão ganha um suingue capitaneado por samplers e guitarras. Algumas canções merecem destaque como Olhou pro Céu, Mestiça Raíz e a ótima regravação de Espelho Cristalino, de Alceu Valença, que conta com uma participação do próprio nos backing vocals.

henrique magalhães
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segunda-feira, 7 de maio de 2012

aula-show com ariano suassuna - feira de santana (ba), 06/05/2012

O mestre Ariano Suassuna

Ontem, no início da noite do domingo, 06 de maio de 2012, tive o previlégio de assistir a uma "aula-show" com um dos maiores mestres vivos da literatura brasileira: Ariano Suassuna.
Com uma lucidez ainda invejável no auge de seus 84 anos de idade, apesar de sua voz frágil, rouca e "horrorosa", conforme ele mesmo ressaltou ao longo da aula, de forma senpre bem-humorada, o escritor, dramaturgo e precussor do Movimento Armorial, movimento surgido na década de 60/ 70 e que tinha como proposta a fusão da cultura popular nordestina com elementos da cultura barroca e clássica.
Com maestria, leveza e bom-humor, o mestre Ariano brincou com o público em diversos momentos, contou "causos" vividos por ele mesmo e por pessoas de seu convívio, incluindo colegas escritores, e discorreu sobre a temática do sertão através de suas obras, como O Auto da Compadecida e A Santa e a Porca, ao longo de aproximadamente 2 horas de "aula-show".
Na ocasião, levei um livro contendo uma antologia poética dele para uma possibilidade de autógrafo, mas a disputa tava tão grande no final que acabei desistindo, o que não chegou a ser uma frustração. Já estava satisfeito o suficiente.
O evento terminou com a certeza de que a cultura popular do nordeste continua mais viva do que nunca, apesar da mesma parecer (apenas parecer!) pequena muitas vezes, diante de tantas novidades "descartáveis" a que temos acesso hoje, isso em um espaço de tempo muito pequeno. Outro ponto que foi ressaltado pelo mestre: os livros impressos são insubstituíveis, apesar dos livros on-line.
Salve mestre! Valeu!!

Henrique Magalhães
(todos os direitos reservados)