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domingo, 18 de novembro de 2012

poema vinil

Fonte: somentecoisaslegais.com.br

Tô na fossa!
Deitado na velha rede
Ouvindo Paulo Diniz
“Como vou deixar você
Se eu te amo?”
Bebendo vinho seco
Beliscando aquele jantar
De ontem
Pensando naquela
Que um dia me disse
“Je t'aime mon amour”
Como que desejando aquele poema
Cujo papel
joguei fora
Antes mesmo de imaginar
O primeiro verso

Ora!
De que vale um verso não achado
Num papel rasgado?
Ou o resto de uma janta
Se não há fome?
Ou ainda o vinho seco
Se não há ela
nem a embriaguez da vertigem?
Resta, então
a velha vitrola
e ela
Mas ela não veio
“José,
e agora?”

henrique magalhães
todos os direitos reservados

terça-feira, 30 de outubro de 2012

refeição


arte: autor desconhecido

comer
poesia
comendo
poetisa

comer
poetisa
comendo
poesia

comer
comendo
poetisa
poesia

henrique magalhães
todos os direitos reservados

domingo, 28 de outubro de 2012

Para Lari e Bia


Ela se jogou na lama
com o seu sexo
nu

e o seu prazer era
úmido
lânguido e aquoso

sua vertigem febril
inundava
aquela aurora

e seu orgasmo
era fluido
e deslizante

seu corpo rosnava
no cio
como animal

e seu grito
atravessava
plantas e rios

à sombra úmida
de uma sangria
inquietude.


Henrique Magalhães & Weslley Almeida
Todos os direitos reservados

quinta-feira, 19 de julho de 2012

lembretes

arte: joan miró


numa caixa de sapatos
vazia
e numa taça de vinho
tinto
seco
cabem todas as rugas
que cabem numa alma
que não cabe
em mim

nas capas dos discos
velhos e lacrados
e no velho vinil
nauseado
tocando uma velha canção
de amor
ou tédio
silenciam-se meus gritos
que não cabem
em mim

no quarto de dormir
e amar
insípido
e no velho livro
de poesia
amor
ou auto-ajuda
moram vários em um
ou um
em vários
nenhum deles (in)existem
co-existem
mas não cabem
em mim

henrique magalhães
(todos os direitos reservados)



domingo, 1 de julho de 2012

à minha avó

arte: di cavalcanti


eu, infante
contava estrelas
cintilantes
no negro céu
pálido
ao sabor de araçás
recém-caídos
sob o árido solo
de minha imaginação
infante

infante, eu
sob o fervilhar incandescente
da velha chaleira
observava borbulhas
do café negro
e o coração a flutuar
junto às pipas
e o gritar de mancebos
como eu
na rua

minha avó
que passava roupas
enquanto apitava
o velho bule
sussurrava docemente
sobre minhas orelhas
frias:
"filho, é melhor sonhar
continue
sonhando"

henrique magalhães
(todos os direitos reservados)

sexta-feira, 22 de junho de 2012

parnaso

às meninas, Golda e Dulce



Arte: Isa de Oliveira

"Sou feminina, menina, mulher, a vida me ensina, a vida me é sina, sou fêmea, sou fama, sou filha, sou drama, da vida, oficina, sou tudo que rima, sou quem desatina, sou sina maior."
(autor desconhecido)


salve
os poetas...

esses seres
insuportavelmente
caóticos

e belos

... prefiro, porém
as poetisas.

henrique magalhães
(todos os direitos reservados)

terça-feira, 1 de maio de 2012

(en)canto

a lua nascente e ao crepúsculo

exalei-me
sem prantos ou vestes
por sublimes eternos instantes
ao tempo
à lua
ao crepúsculo alaranjado sobre o mar anil
à primeira mulher
(e à última também)
que para sempre amei

henrique magalhães
(todos os direitos reservados)

à-deus


fui...

já era tarde
sem despedidas
sem adeus
à-deus

na chegada...

embora crepúsculo
era cedo
o sol se ía
e eu partia
de mim mesmo

henrique magalhães
(todos os direitos reservados)

sábado, 28 de abril de 2012

pobres poetas


a samir benjamim e weslley almeida

(...)
que se perdem
tristes
afogados no nanquim
duma pena pálida

ou num copo de cerveja
(quase) quente
ou numa taça de vinho
doce

derramam seu pobre alfabeto
sobre folhas vãs
e pálidas
ouvindo o silêncio dos surdos
ou vivaldi

mendigando alguma migalha
de verso
se submetem insones
à noite insone

pobres leitores
igualmente mendigos
e corujas
aprendizes de poetas
(ou quase)

henrique magalhães
(todos os direitos reservados)

in memoriam


perdi no recife
numa qualquer esquina
meus melhores anos

chupando manga-rosa
na casa de vovô
antônio

saboreando suspiros
na casa de titia
quitéria

tomando cerveja
na casa de meu tio
adelmo

ouvindo heavy
com meus primos
ricardo e hugo

arranhando inglês
com minha prima
patrícia

falando besteira
com titia
cida

paparicando vivi
na casa de titia
adriana

pelas colinas de bultrins
(já olinda)
ficaram resquícios de uma fé
ainda pulsante

henrique magalhães
(todos os direitos reservados)

acaso



de repente
me vi
diante de mim
de uma sombra
um espelho
uma fumaça

de repente
sou eu
lampejo
fogo
ou nuvem

de repente
um pássaro
uma pluma
ave sangria despida
num firmamento
árido

henrique magalhães
(todos os direitos reservados)

terça-feira, 24 de abril de 2012

songbook


aprendi com o tom
o maior e o jobim
que nem tudo é bossa
mas tudo é ela
copacabana e rocinha
o mar e a princesa
o mar

aprendi com o milton
mil-tons, sem tons
que nem tudo é clube
nem esquina
mas tudo que é clube
dá na esquina
rio e minas
negro e belo horizonte
violão e terço
violão

aprendi com o caetano
que os santos, amaros santos
caetaneam
sussurrantes em caracóis semblantes
nem tudo é santo
bahia é tudo
abaeté, itapoã
santo amaro, pelô
irmã dulce, velô
o mar

deixo tudo para o chico
a arte de inventar
reinvenções semanticamente semânticas
almanaque das rosas
dos ventos
trocando em miúdos
à flor da pele
o cristo e o mar
o cristo
a-mar

henrique magalhães
(todos os direitos reservados)

domingo, 9 de novembro de 2008

Há dias...


Há dias em que acordo e não levanto
Há dias em que levanto e não acordo
Há dias em que levanto
Há dias em que acordo
Há dias em que desacordo
Há dias em que não durmo
Há dias...

Henrique Magalhães
(todos os direitos reservados)

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Nosotros, nosotras



http://www.youtube.com/watch?v=B_gaRQ3i1Pc

(Geraldo Azevedo/ Capinan)

Por muy negro que seas
no es menos hermoso
que nosotros, que nosotros
asi me habla la paloma
asi no me hablan los otros

Por muy mundana que seas
no es menos hermosa
que nosotras, que nosotras
asi me habla la rosa
asi no me hablan las otras

Por muy pobre que seas
no es menos sabroso
que nosotros, que nosotros
asi me habla la tierra
asi no me hablan los otros

Por muy loco que seas
no es menos maravilloso
que nosotros, que nosotros
asi me habla los pajaros
asi no me hablan los otros

Por muy obrero que seas
no es menos amoroso
que los negros, que los blancos
las mundanas, las cristanas
que los ricos, que los locos
que nosotras, que nosotros
asi me habla mi amor

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Ensaio acerca do caos e da mística (amorfa)

Fui surgindo assim, meio amorfo, meio avesso, meio sujo, nu.
Como um anjo cubista, um Dali ou um Picasso, algo belo, ou desconexo.
Sem algemas nem barbante, fui amando, amando, amando, ... simplesmente.
Nada tão surreal ou súbito, apenas uma comédia sem drama ou mocinha.
A vida, com seus demônios e anjos, ... amorfos.

Henrique Magalhães
(todos os direitos reservados)

LIX

Pobres poetas a quem a vida e a morte
perseguiram com a mesma tenacidade sombria
e logo são cobertos por impassível pompa,
e entregues ao rito e ao dente funerário.

Eles - obscuros como pedrinhas - agora
detrás dos cavalos arrogantes, estendidos
vão, governados ao fim pelos intrusos,
entre os acompanhantes, a dormir sem silêncio.

Antes e já seguros de que já está morto o morto
fazem das exéquias um festim miserável
com pavões, porcos e outros oradores.

Espreitaram sua morte e então a ofenderam:
só porque sua boca está fechada
e já não pode contestar seu canto.

Pablo Neruda in Cem Sonetos de Amor

seja "bem-vindo"

7 de agosto
eis a data que eu vim ao mundo
acho que não o prepararam muito bem para me receber

Henrique Magalhães, parafraseando Mário Quintana
(todos os direitos reservados)

domingo, 30 de dezembro de 2007

avessos



O que há por detrás da janela matinal? Apenas a manhã.
Por detrás da manhã apenas o vulto, a brisa, a poeira, o tempo, ...
Por detrás disso tudo, a vida. O tempo que dilacera certezas, reconstrói abismos, reergue pontes, ...
O avesso do avesso do avesso!!!
A janela, a manhã, o vulto, a brisa, a poeira, o tempo, a vida, ... avessos.

Henrique Magalhães
(todos os direitos reservados)

desencontros, ...



Acordei hoje como num dia normal: olhos ainda remelentos de uma noite bem (mal) dormida, corpo preguiçoso e cama ainda aquecida.
Levantei-me num esforço sobrenatural da cama, me olhei no espelho e disse ao cara estranho que eu via: "oi". Esse cara parece que também me dizia algo, não consegui ouvir bem o quê.
Enquanto meus dentes se perdiam em meio as espumas do creme dental, me perguntava: "como será hoje?". Como nos outros dias, apenas mais um dia entre tantos. Resolvo fazer algo que há tempos não fazia. O quê? Soltar pipa, correr frenetivamente atrás de uma bola num campinho de terra batida, ler alguma coisa bem boba, escrever algo bem tolo? Não hesitei muito, fiquei com a última opção.
O que aconteceu depois! (...) e eis que nasceu um blog!!!

Henrique Magalhães
(todos os direitos reservados)