algo parido para despir
gerar sensações
parir sensações
despir sensações
desnudar e vestir
ferir e cicatrizar
desencontrar encontros
tornar o vil e o fugaz
o avesso
Definitivamente, o rock sambou de vez.
Não só o rock. O soul e o jazz também.
Confiram só essa maravilha de releitura desse jovem e talentosíssimo grupo carioca.
Simplesmente demais!!
aprendi com o tom
o maior e o jobim
que nem tudo é bossa
mas tudo é ela
copacabana e rocinha
o mar e a princesa
o mar
aprendi com o milton
mil-tons, sem tons
que nem tudo é clube
nem esquina
mas tudo que é clube
dá na esquina
rio e minas
negro e belo horizonte
violão e terço
violão
aprendi com o caetano
que os santos, amaros santos
caetaneam
sussurrantes em caracóis semblantes
nem tudo é santo
bahia é tudo
abaeté, itapoã
santo amaro, pelô
irmã dulce, velô
o mar
deixo tudo para o chico
a arte de inventar
reinvenções semanticamente semânticas
almanaque das rosas
dos ventos
trocando em miúdos
à flor da pele
o cristo e o mar
o cristo
a-mar
Uma lenda viva da música brasileira (independente dos ódios ou paixões que ele desperte ou já tenha despertado), seja como produtor cultural ou compositor, Nelson Motta, em seu livro Noites Tropicais faz uma sinopse imparcial e bem-humorada da história da música brasileira dos últimos 30 anos (do início da Bossa Nova até 1992, com o advento da "onda sertaneja"). Na obra, relatos que vão de hilariantes (as histórias envolvendo o Tim Maia), à trágicas (a morte da "pimentinha" Elis Regina, em 1982), passando por passionais (o envolvimento amoroso do próprio autor com a Elis, ainda casada com Ronaldo Bôscoli). Relatos, histórias e memórias musicais, na ótica de quem vivenciou a música brasileira de perto nos últimos 40 anos.
Vale a pena!!
Motta, Nelson. 2000. Noites tropicais: solos, improvisos e memórias musicais. Objetiva, 464 p.
Certa vez, em uma roda de amigos regada a muito uísque e violão, perguntaram ao "poeta, poetinha vagabundo" Vinícius de Moraes: "você acredita que exista reencarnação?". Ele respondeu em tom de dúvida e deboche: "não sei, deve existir né?". Então a mesma pessoa que lhe fez a pergunta anterior (o Chico Buarque, se não me engano) volta e lhe perguntar: "e se existir reencarnação, quem você gostaria de ser em outra vida?". O poetinha responde: "poderia ser eu mesmo". Faz uma pequena pausa e continua: "mas o pau poderia ser um pouquinho maior".
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.
(Torquato Neto)
Torquato Pereira de Araújo Neto nasceu em Teresina (PI), no dia 09 de novembro de 1944. Foi contemporâneo de Gilberto Gil no colégio em que estudou, em Salvador, tornando-se amigo do compositor e conhecendo também os irmãos Caetano Veloso e Maria Bethânia. Em 1966 mudou-se para o Rio de Janeiro, começando seus estudos de Jornalismo. Mesmo sem ter concluído o curso, iniciou-se na profissão trabalhando em diversos jornais cariocas, tendo criado e redigido a coluna "Geléia Geral" no jornal carioca "Última Hora". Um dos criadores do movimento tropicalista, é o autor de inúmeras letras de músicas de sucesso, entre as quais destacamos "Mamãe, Coragem", "Geléia Geral", "Domingou", "Louvação", "Pra dizer adeus", "Rancho da rosa encarnada" e "Marginália II". Em 10 de novembro de 1972, suicidou-se deixando o seguinte bilhete: "Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar". Em 1973, ocorreu a publicação póstuma de seu livro "Os Últimos Dias de Paupéria", organizado por Ana Maria Silva Duarte e Waly Salomão. Três anos depois, alguns de seus poemas foram incluídos na antologia "26 Poetas Hoje", organizada por Heloísa Buarque de Hollanda. Em 1997, foram publicados quatro de seus poemas na antologia bilíngüe "Nothing the Sun Could Not Explain", organizada por Michael Palmer, Régis Bonvicino e Nelson Ascher.
O poema acima foi publicado no livro "Os Últimos Dias de Paupéria", Max Limonad - Rio de Janeiro, 1973, e selecionado por Ítalo Moriconi para figurar no livro "Os cem melhores poemas brasileiros do século", Objetiva - Rio de Janeiro, 2001, pág. 269.
Quem disse que música "brega" quer dizer necessariamente música "ruim"?
Há algum tempo eu venho questionando firmemente isso. Eu, que até meus 19 anos só ouvia rock 'n roll, de uns tempos para cá venho me interessando cada vez mais por essa cultura "brega". E, diga-se de passagem, me encantando cada vez mais!!
Essa pérola, composição de Benitto di Paula, chama-se "Retalhos de cetim". Conta uma história que é a história de muitos de nossos personagens nesse imenso Brasil de "gentes e gentes". Amor, expectativa pela amada e dor-de-cotovelo são alguns dos pilares da estória narrada nessa obra-prima da cultura "brega" brasileira. Ah, isso tudo associada a uma melodia lindíssima!!
Ensaiei meu samba o ano inteiro
Comprei surdo e tamborim
Gastei tudo em fantasia
Era tudo o que eu queria
E ela jurou desfilar pra mim
Minha escola estava tão bonita
Era tudo o que eu queria ver
Em retalhos de cetim eu dormi o ano inteiro
E ela jurou desfilar pra mim
Mas chegou o carnaval
E ela não desfilou
E eu chorei, na avenida eu chorei
Não pensei que mentia a cabrocha que eu tanto amei
Essa música me impressionou desde o primeiro que a ouvi, pela letra, pela musicalidade, pela harmônia, enfim, pelo conjunto da obra.
Letra do extraordinário compositor maranhense Zeca Baleiro, e interpretada por Renato Brás, instrumentista e intérprete formidável, essa canção é realmente um encanto. Pelo que me consta, o Zeca Baleiro nunca chegou a gravá-la, apesar de tê-la composta.
Vale a pena "degustá-la"!! Encontra-se no albúm homônimo do Renato Brás, de 1996.
Enquanto você na arquibancada eu na geral
Enquanto eu além de tudo você afinal
Enquanto eu rondó você madrigal
Enquanto eu paro e penso você avança o sinal
Enquanto você carta marcada eu canastra real
Enquanto eu lugar-comum você especial
Enquanto eu na cozinha você no quintal
Você dois pra lá
E eu dois pra cá
É a dança da nossa paixão
Enquanto você kamikaze eu general
Enquanto eu Paquetá você Cabo Canaveral
Enquanto eu média luz você carnaval
Enquanto você no Olimpo ai de mim mortal
Enquanto você brisa eu vendaval
Enquanto você Roberto eu Hermeto Paschoal
Enquanto você monumento eu pedra de sal
Enquanto você na folia eu no funeral
Enquanto eu matriz você filial
Enquanto você Branca de Neve eu Lobo Mau
Enquanto eu papai-mamãe você sexo oral
Enquanto eu na canção você no parque industrial